Entrevistas

9/7/2009
Cacá - No porão de General Severiano tinha uma barbearia; o Nilton vivia lá, adorava cortar o cabelo


Nilton Santos e Cacá, no aniversário de 84 anos da Enciclopédia - Foto: Arquivo Pessoal


Carlos Castro Borges, mais conhecido como Cacá, jogou ao lado de Nilton Santos no Botafogo por mais de quatro anos. Antes disso, em 1957, eles se enfrentaram na disputa pelo título estadual. Nilton, pelo Botafogo, levou a melhor, ganhando de 6 a 2 sobre o Fluminense, de Cacá. A amizade, no entanto, não se resume somente ao futebol. Até hoje eles são grandes amigos e se encontram. Para visitar o companheiro, ele sempre leva um doce ou chocolate para alegria do nosso eterno craque guloso. 

Um pouco sobre essa amizade e alguns segredinhos do Nilton, a seguir com o nosso entrevistado do mês de julho do Amigos do Nilton.

Amigos do Nilton: Cacá, você nasceu aonde e em que ano?
Carlos Castro: Eu nasci em Botafogo, no Rio de Janeiro, no dia 31 de agosto de 1932.

Amigos do Nilton: Você lembra quando foi a primeira vez que você conheceu o Nilton Santos? Como foi esse encontro?
CC: Eu sempre fui torcedor do Botafogo e, por isso, frequentava o clube com o meu pai, antes mesmo de começar a minha carreira de jogador. Como eu conhecia o Octávio Morais, ex-jogador, eu tinha contato com alguns jogadores do Botafogo da época, entre eles, o Nilton Santos.

AN: Você era o lateral direito do Fluminense na final de 1957. Como foi enfrentar o Nilton Santos?
CC: Na verdade, desde 1952, no América, eu já enfrentava o Nilton. E eu era da posição bem contrária a dele em campo, de lateral direito. Ele era um jogador excepcional, mas como eu já o via jogar há bastante tempo, conhecia as suas malandragens. Mesmo assim era um adversário bem difícil.

AN: Três meses depois desta final, você foi transferido para o Botafogo. Como foi chegar ao time do Botafogo?
CC: Depois daquela final, saiu a lista de convocados para a Copa do Mundo de 1958 e eu era um deles. Então, antes de chegar ao Botafogo, eu comecei a treinar com o Nilton na concentração da Seleção. Como eu já conhecia o Didi - jogamos juntos por um ano no Fluminense - eu tinha um conhecido em comum lá dentro; e foi aí que comecei a ter contato com o Nilton Santos.

AN: E nessa época você e o Nilton já eram amigos?
CC: Não. A amizade começou no Botafogo mesmo. Como o time do Botafogo tinha muitos campeões mundiais (da Copa do Mundo de 58), nós viajávamos pelo Brasil e mundo afora, porque todos queriam nos ver jogar. Todas essas viagens fizeram com que nós, os jogadores, ficássemos muito próximos; passávamos a semana toda juntos, a convivência era enorme e ela nos tornou amigos.

AN: Como era o relacionamento do Nilton com os outros atletas e funcionários do clube?
CC: Ah.... o melhor possível! O Nilton sempre foi um gozador, brincava com todo mundo. Sempre foi muito querido, gostava e falava com todos, desde o porteiro quando entrava, ao garçom, na hora do almoço. Tinha um garçom, apelidado de Casado, que sempre brincava com ele. Ah! E tinha o barbeiro! No porão de General Severiano tinha uma barbearia e o Nilton vivia lá, adorava cortar o cabelo. Ele estava sempre nos trinques (risos).

AN: Nos treinos e concentrações, o Nilton estava no grupo dos jogadores mais certinhos ou era mais bagunceiro?
CC: Ele nunca foi de bagunça. Tinha a turma do batuque, a turma da sinuca, a turma do baralho... o Nilton não gostava de nada disso. Ele vivia descansando, falava que tava com sono e ficava deitado na cama acumulando energia para os jogos. Ele ficava todo coberto, só com os olhos de fora. Quando alguém zoava ele, ele chiava... a gente chamava ele de “chiador” porque ele sempre dizia: “Vocês não têm nada pra fazer? Deixa eu descansar!” (risos)

AN: Como era a preparação do Nilton para entrar em um jogo?
CC: Tinha jogador que ficava horas aquecendo, alongando... o Nilton não. Como eu disse, ele vivia deitado; dizia que estava acumulando energia para gastar no jogo.

AN: Conte-nos uma história curiosa sobre o Nilton jogador:
CC: Teve um treinador que resolveu, no dia anterior ao de um jogo, colocar o pessoal pra correr. Tínhamos que fazer uns piques de 100 metros. E ele dizia: “Faz mais um, agora pra lá, vamos correr!’. Aí, o Nilton resolveu falar com ele e disse, na cara de pau: “Professor, a gente está correndo aqui hoje, mas, amanhã, enquanto você vai ficar sentado, vamos correr atrás dos adversários. Então, se eu correr tanto assim hoje, amanhã estarei cansado”. (risos)

AN: O Nilton, como pessoa, fora de campo, tem alguma história marcante?
CC: O Nilton sempre fez de tudo para ajudar a todos. Às vezes, um camarada parava de jogar e ficava sem grana, ele recolhia com todo mundo para poder ajudar. E tem muitas outras histórias, mas nem tudo eu posso contar, né?!

AN: Como descreveria essa amizade, que ultrapassou a convivência nos clubes e gramados?
CC: É uma amizade pura, sem interesse. Por isso que durou. É única e exclusivamente por afinidade e fraternidade.

AN: Quando vocês se encontram, qual o assunto que toma conta da conversa?
CC: Fatos passados! A gente relembra as histórias, os amigos. Como a minha memória é melhor, ele fica me perguntando por amigos antigos, jogos, viagens. Eu sempre mexo muito com ele. Quando o acho desanimado, logo digo que tenho um grupo de loiras para mexer com ele. Ele então, rapidamente, olha pra mulher e diz: “Esse Cacá está doido....”

AN: Você conheceu o Nilton bem jovem e agora convive com um Nilton mais experiente. Ele mudou muito ou continua sendo a mesma pessoa?
CC: Não mudou nada, é a mesma pessoa. Sempre foi gozador, sempre teve mordacidade e sempre adorou ficar deitado. Nunca foi de comer muito, sempre foi muito magrinho. Mas, sempre adorou sorvete!



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