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3/6/2020
O chiado e a malandragem que ajudaram o Brasil em 1962


Nilton Santos em forma com jogadores da Seleção Brasileira na Copa de 1962 - Foto de autor desconhecido


Campeão em 1958, o Brasil chegou ao Mundial no Chile, em 1962, como favorito. Mas, o caminho para o bicampeonato, como se sabe, não foi fácil. Na estreia, a seleção brasileira derrotou os mexicanos por 2 a 0. Na sequência contra a Tchecoslováquia, Pelé sofreu uma contusão que o deixou fora do resto da Copa. A partida terminou com empate sem gols e os brasileiros tiveram que lidar com a desconfiança sobre a sua ausência. Contra a Espanha, uma decisão antecipada. Amarildo assumiu a missão de substituir Pelé em campo e a pressão sobre o jovem de 22 anos não foi pequena.

Sempre muito preocupado e companheiro, Nilton dera um jeito de acalmar, mas também incentivar, o parceiro de clube. Em sua autobiografia – Minha Bola, Minha Vida –, ele conta que desde a noite após o jogo contra os tchecos passou a visitar, quieto, o amigo em seu chalé.

“Você foi convocado pelo futebol que joga no Botafogo. Não queira fazer nada além disso. Jogue o futebol que sabe, sem se preocupar no lugar de quem foi escalado. Sei que não é fácil substituir um jogador feito Pelé, mas você tem a vantagem de estar acostumado a jogar com o Didi, Garrincha e o Zagallo, por tanto, vai ser mais fácil para você, pense sempre nisso e jogue o que sabe, não queira inventar”.  

Nilton Santos tinha o perfil de fazer comentários durante e após os jogos. Por sempre reclamar muito, ganhou o apelido de “chiado”. No livro, ele também revela que na véspera do confronto com a Espanha, passou orientações a Didi, chegando a repreende-lo de forma mais dura, em alguns momentos. O lateral se preocupava com um sentimento revanchista em relação a Di Stefano, com quem Didi jogou em sua passagem pelo Real Madrid. Segundo ele, o argentino não gostava de atuar com o meio campista brasileiro e o confronto seria oportunidade para dar o troco ao rival.

“Achei que era melhor conversar com ele. Então, falei: “Você não tem e não vai provar nada a ninguém. Está numa seleção e tem que jogar para o grupo, não por você. Vamos ser campeões e outro dia eu ajudo você a ir à forra contra esse cara”.

Velho não. Esperto sim.

Como dito na imprensa esportiva da época, a convocação de Nilton Santos para a Copa no Chile foi polêmica. Alguns fãs de seu futebol permaneciam em sua defesa, mas outros criticavam sua escalação justificando sua idade elevada, 37 anos. Nilton deu a volta por cima e provou estar apto a ser selecionado, principalmente nos amistosos que antecederam a convocação final. Mas, o discurso de que ele era um “jogador velho” foi usado pelo técnico espanhol Helênio Herrera. O treinador dava recomendações para que seus comandados, especialmente Collar, partissem sempre em direção a ele, achando que seria fácil levar vantagem sobre o “velho decadente Nilton Santos”. Collar, que era ponta esquerda, foi escalado na direita com essa missão.

“Eu o deixava correr até a linha de fundo, quando voltava eu tomava a bola dele. Só deu para mim o jogo todo. Numa dessa, eu o raspei e fiz um pênalti. Que, por sinal, só me convenci de que havia feito quando assisti ao tape. Mas, como senti alguma coisa no ar, pelo sim, pelo não, dei um passo à frente e levantei os braços. O juiz, que estava longe do lance, quando chegou, marcou a falta onde eu estava. Aí começamos a ganhar o bi. A Espanha não poderia nunca ter feito 2 a 0”, disse.

Na falta marcada, novo perigo. A bola cruzada na área resultou numa bela bicicleta de Puskas. Entretanto, o árbitro chileno Sérgio Bustamante alegou impedimento no lance e anulou o gol. Após o susto e a polêmica ajuda da arbitragem, a seleção brasileira acordou. Garrincha brilhou e o Brasil desencantou o seu futebol. Amarildo, enfim, mostrou seu cartão de visitas e fez os dois gols da vitória.

Com o resultado, veio a classificação para as quartas de final e com a ajuda decisiva da Enciclopédia. Depois daquele dia, 06 de junho de 1962, o Brasil seguiu em frente rumo a conquista do título da Copa do Mundo de 1962.


 



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