Entrevistas

15/7/2020
Nilton Santos como quase ninguém viu (2ª parte)


Nilton Santos na capa do segundo Caderno do Jornal do Brasil - Foto: Reprodução


Na segunda parte da entrevista publicada pelo Jornal do Brasil, Nilton Santos permanece sincero e direto (ler o primeiro trecho aqui). Em resposta ao questionário, ele continua sua aula sobre futebol, fala da imprensa, aponta um algoz em sua carreira e dá até uma bela lição quando diz que não se joga com raiva, afinal, com raiva não se consegue nada. Outro momento curioso é quando ele diz que deixou de ser supersticioso.

Aprecie essa viagem no tempo, quando a Enciclopédia do Futebol tinha 35 anos, 12 deles vividos em General Severiano.

Jornal do Brasil, 3 e 4 de abril de 1960.

JB: Acha que o tempo influiu na sua técnica?

NS: Quanto mais se joga, quanto mais se pratica com a bola, mais se apura a técnica do passe, do domínio e da rebatida. O tempo me deu ainda a vantagem de trocar o entusiasmo pela tranquilidade. Antes eu era agitado e precipitado; hoje, já me sinto mais calmo e experiente.

JB: Já foi enganado pelo efeito da bola?

NS: Raramente. Tenho a impressão de que o fato de ter jogado muito tempo no ataque, quando garoto, me ajudou muito a conhecer os efeitos da bola. Geralmente, o atacante conhece muito melhor os efeitos da bola do que os defensores.

JB: Qual é o sistema de defesa ideal?

NS: O quatro-dois-quatro, porque não expõe a defesa. Há sempre um homem sobrando para a cobertura. Foi com esse sistema que saímos campeões do mundo na Suécia.

JB: Você jogou pelada muito tempo?

NS: Durante seis anos, fui jogador de pelada inveterado. Jogava de manhã e de tarde e muitas vezes nem almoçava para não encher o estômago. Não podia perder tempo.

JB: Ao cabo de 12 anos de futebol, que experiência pode transmitir ao jogador de defesa?

NS: Serenidade, serenidade, serenidade. E se tiver que atrasar a bola ao goleiro, atrase mesmo, sem pensar na vaia da torcida. Atrasar a bola ao goleiro é uma jogada legítima, que dá muita tranquilidade ao seu “team” nos momentos difíceis.

JB: Você joga com raiva?

NS: Não, nunca. Com raiva ninguém faz nada que preste.

JB: Qual a influência da imprensa na sua carreira?

NS: Benéfica. A imprensa só me tem ajudado. A crítica tem sido um estímulo quando elogia ou quando (e graças a Deus isso é raro) me dá duro.

JB: Qual a posição mais ingrata no futebol?

NS: Goleiro. O goleiro é um sacrificado e um incompreendido. Ninguém admite erro do goleiro. A rigor, nem ele mesmo. E isso é duro.

JB: Quais os cartolas que se marcaram na sua vida (para bem e para mal)?

NS: Para bem, Carlito Rocha, que sempre confiou em mim e deu o impulso inicial da minha carreira. Para mal, o Sr. Mendonça Falcão que fez tudo para que eu não fosse campeão do mundo. Não queria nem me deixa treinar antes do embarque para a Suécia.

JB: Já sofreu distensão muscular?

NS: Nunca, em 12 anos de futebol profissional e em mais de seis de peladas, nunca senti nada nos músculos. Tenho a impressão de que devo isso à banheira de água quente depois de jogo e de treino. Curioso é que nunca fui muito dado a massagens. Gosto mais de banheira de água quente.

JB: Já derrotou o seu “team”?

NS: Tenho a impressão de que não. Pelo menos, nunca sai de campo com a consciência de ter derrotado meu “team”.

JB: Qual o maior zagueiro que você já viu?

NS: Esclareço que não cheguei a ver o Domingos da Guia. Dos que vi, Djalma Santos e Basso.

JB: E atacantes?

NS: Dos que vi e enfrentei, Zizinho e Pelé. Embora sem ter jogado contra ele, incluo Garrincha entre os melhores que tenho visto.

JB: Se tivesse que começar outra vez em que posição iria jogar?

NS: Meia-esquerda. É o meu fraco.

JB: Quem mais lhe tem dado trabalho em campo?

NS: Vestiu camisa diferente da minha, me dá trabalho.

JB: É supersticioso?

NS: Era, até ser campeão do mundo. Depois disso, sou um jogador sem cismas. Entro em campo e jogo, simplesmente.



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