Entrevistas

9/9/2020
O anjo do Nilton Santos


Pedro Paulo Malta, Dr. Paulo Samuel, Dr. Luis Eduardo com Amarildo no aniversário do Nilton Foto: Pamella Lima


Há muitas versões para o Juramento de Hipócrates. Ao longo de séculos e lugares, ele foi adaptado. Há uma versão interessante, cujo trecho diz assim: “prometo que, ao exercer a arte de curar, mostrar-me-ei sempre fiel aos preceitos da honestidade, da caridade e da ciência”. Chama atenção a palavra caridade, pois ela se aplica ao Dr. Paulo Samuel. Não pela interpretação pejorativa de piedade, mas pela essência de que quem a pratica guarda um amor ao próximo dentro do coração. Formado em 1968 na faculdade de medicina pela antiga Universidade do Brasil (conhecida hoje como UFRJ) e com residência médica em Cirurgia Cardiovascular, Dr. Paulo Samuel é um dos médicos mais conhecidos no Botafogo.

Devoto da Estrela Solitária, colecionou amigos. Nos anos 80, ao lado do Dr. Maurício Caram e Dr. Luis Eduardo, atuou como diretor médico cuidando de atletas dos esportes olímpicos junto do Vice Presidente Raimundo Grossi, campeão renomado de basquete. Sua filha, Ana Paula, foi campeã no Remo e seu filho, Pedro Paulo Malta, também é fiel ao Botafogo. Pouco depois, na gestão de Carlos Augusto de Montenegro e de Jorge Aurélio, com o presidente do conselho deliberativo, atuou na comissão para a retomada da sede de General Severiano (lá, inclusive, tem uma placa de bronze com seu nome dada de presente pelo presidente Montenegro).

Nós, da equipe do site, conhecemos o doutor Paulo Samuel como o “anjo do Nilton”. Foi ele o responsável por cuidar de toda assistência médica quando a Enciclopédia do Futebol mais precisou. Outros também receberam os cuidados e apoio do médico no Instituto de Cardiologia em Laranjeiras: Juvenal, Mendonça, Adalberto, Pampolini, Paulo Amaral até o Russão, fanático ícone da “Torcida Folgada”, entre outros funcionários com “DNA” alvinegro. A lista é longa e a história também. Atendendo a nosso pedido, Dr. Paulo Samuel aceitou relembrar do paciente e querido amigo contando-nos um pouco sobre a sua relação com o eterno craque da camisa seis.

Site Nilton Santos: Como conheceu o Nilton Santos?

Dr. Paulo: A primeira vez foi em um camarote no Maracanã em 1956 ou 1957. Eu o vi sentado com Didi e Garrincha. Esse momento foi memorável, fiquei sem reação. Mais tarde, quando eu estava no Instituto de Cardiologia, em Laranjeiras, a secretária do presidente Bebeto me ligou falando que estava preocupado porque o Nilton estava internado em Araruama com problema de coração. Prontamente conseguimos sua transferência e, nesse período de internação, eu o visitava diariamente, por isso ficamos muito amigos. Pouco tempo depois, isso em 2006, ele começou a ficar mais agitado e perder um pouco a noção das coisas. Identificamos um processo de perda de memória e conseguimos organizar uma transferência dele para a Clínica na Gávea. Com a ajuda do Bebeto de Freitas, o Botafogo assumiu todas as despesas.

Site Nilton Santos:  O Nilton era um paciente que dava muito trabalho ou obediente?

Dr. Paulo:  Ele era uma pessoa extremamente educada e gentil. Nunca vi ele perder a paciência, apenas no início de processo quando veio de Araruama. Ele sempre tinha muitas histórias para contar para todos que o visitavam, médicos, enfermeiros, era uma bela pessoa.

Site Nilton Santos: Alguma lembrança especial?

Dr. Paulo:  São muitas! Eu ia praticamente toda semana almoçar com ele e sempre tínhamos que descer para tomar três bolas de sorvete de flocos, pois ele não gostava de gelatina. Quando inauguraram o estádio que veio a ter o seu nome, a Mari Coeli e eu o levamos para uma visita. Entramos com o carro e fomos até a porta do vestiário. Fomos até o campo e comecei a bater bola com ele. Foi um dos momentos mais marcantes que tive. Os jogadores treinando, olhando, e ele fazendo graça ali comigo. Em um momento, ele deu uma trivela de direita e me explicou um drible que fazia nos adversários. Depois, os jogadores e a equipe técnica nos cercaram, tiraram diversas fotos e ele estava extremamente feliz. Quando cheguei em casa, fiquei muito emocionado. Lembro do Lucio Flávio, Leandro Guerreiro, todos encantados em ver o Nilton. Outra ocasião marcante foi no seu aniversário. Amarildo tinha voltado ao Brasil e o Nilton ficou quase 30 anos sem vê-lo. Quando entrou pela porta do quarto e o Nilton levantou a cabeça, imediatamente, disse: “e ai, Possesso! Quanto tempo!”. Depois de tantos anos, o reconheceu e o chamou de “Possesso”, para ver como a memória antiga não falha.

Site Nilton Santos: Que significado tem para você poder ser médico de um ídolo da sua juventude?

Dr. Paulo: Cuidar da Saúde do Nilton Santos foi muito importante para mim e isso é uma das coisas que o Botafogo me proporcionou. Quando converso com amigos eu falo que o Nilton representa um número no meu currículo. Assim como ele, outros também.  Foi uma honra e um prazer enorme poder ajudar a quem tantas alegrias me deu. Eu organizei o quarto dele com a Maria Coeli. Arrumamos coisas que tinham na casa em Araruama: troféus, livros, medalhas, fotos referentes à vida de sucesso que ele teve. Ele ficou num ambiente muito bom, espaçoso. Isso foi extremamente feliz para todos. Em um dia, o visitei na véspera do meu aniversário e eu recebi deles uma camisa de presente, que ele autografou na minha frente. Percebi uma comunicação forte nos olhos dele, de coração, e aquilo me emocionou muito. Eu a uso até hoje como superstição nos jogos mais difíceis, essa é uma das minhas mandingas. Às vezes dá certo, às vezes não (risos).

*Nossos agradecimentos a Pedro Paulo Malta, pela ajuda com a realização da entrevista.



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